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fevereiro 17, 2006

Ponto Final: Match Point (2005)

 


Título original: Match Point
Direção: Woody Allen
Sinopse: O instrutor de tênis Chris Wilton se casa com a jovem Chloé para conseguir um cargo na empresa do sogro milionário, mas começa a traí-la com Nola Rice, a sensual noiva americana do cunhado, que ameaça expor o romance.


Woody Allen chega ao seu quadragésimo longa-metragem. Aclamado internacionalmente, indicado ao Oscar. Definitivamente não seria o ‘normal’ para Allen. E não é. Tudo o que vemos em Ponto Final é, a princípio, uma simples (e ao mesmo tempo complexa) história de amor, num triângulo amoroso que, inevitavelmente, pede por um grandioso clímax.

Devo dizer que é frustrante não somente não ter Woody aparecendo na tela, mas sua direção também é frustrante, especialmente para quem conhece (e gosta) do trabalho anterior do diretor ultra-novaiorquino. Para quem não se importa com isso, Ponto Final pode representar uma experiência e tanto. Allen não está muito à vontade fora de sua habitual Nova York, isso é certo. Por vezes o filme se parece mais com um vídeo demonstrativo do ‘como Londres é cool’ do que o filme introspectivo que se propõe a ser.

Ainda de acordo com minhas crenças, indicado ao Oscar significa qualidade  duvidosa. Não vou rotular Ponto Final como sendo ruim. Decididamente não é. Mas é um trabalho mediano e nada mais. Ok, Woody Allen finalmente mudou de história depois de quarenta anos. Bem, nem tanto. É a mesma história de amor, pelo menos na maior parte do filme, só que em Londres e não em Nova York.

Ponto Final ainda seria um pouco mais autoral e lógico se terminasse com um final... lógico. Sim, porque o estilo de filme nos propõe um tipo de finalização que não ocorre. E o plot-twist que deveria agradar ao espectador acaba por se demonstrar inverossímil. Passamos mais de uma hora conhecendo os personagens, nos entediando com várias cenas praticamente ‘repetidas’ para depois sermos jogados em personagens que ‘mudam de personalidade’ de repente. O pacífico Chris (Jonathan Rhys Meyers) de repente se transforma. Até mesmo a insossa Nola (Scarlet Johansson) começa a ser uma outra pessoa.

Enfim, no momento em que passamos a acreditar nos personagens, eles se  revelam outras pessoas, coisas impossíveis passam a acontecer e coisas do gênero. Certamente esse terceiro ato de Ponto Final é mais interessante que tudo o que nos foi apresentado anteriormente. Mas infelizmente tem um roteiro que se torna risível às vezes por seus diálogos-clichês mal colocados em personagens pessimamente construídos, como já mencionado, interpretados por um time de atores e atrizes sem competência. Todos têm a mesma cara, seja amando ou odiando. E isso não é um legítimo Woody Allen que valha aqueles clássicos créditos em preto com uma típica música novaiorquina de fundo. Volte para Nova York, Woody.

Bambi 2: O Grande Príncipe da Floresta (2006)


Título original: Bambi II
Direção: Brian Pimental
Sinopse: A história de Bambi crescendo sob os cuidados de seu pai, o Grande Príncipe da Floresta.


Longe de se parecer com qualquer uma das novas produções da Disney, Bambi 2: O Grande Príncipe da Floresta segue a fórmula de sucesso dos antigos sucessos do estúdio. É com gosto que fui ao cinema ver um filme em animação tradicional, um entre muitos blockbusters de computação gráfica que tomam conta dos cinemas nos últimos anos.

Certo, mesmo que todos saibam que as animações clássicas tradicionais da Disney sempre funcionaram, a mesma Disney é conhecida por ser péssima em produzir uma continuação de qualquer filme de forma "decente". São exemplos os decepcionantes O Rei Leão 2: O Reino de Simba ou Toy Story 2. O que dizer sobre uma continuação de um filme lançado originalmente há 64 anos atrás?

Tinha tudo pra dar errado. Tudo mesmo. Mas Bambi 2 é um acerto. A história do veadinho que perde a mãe atinge todas as faixas etárias, desde pessoas com quase 80 anos que eram crianças à época do lançamento até os mais jovens, como eu, que viram o filme nos cinemas em um de seus diversos relançamentos, ou em DVD (recentemente lançado em edição dupla especial pela Buena Vista).

Assim como o longa anterior, Bambi 2 não tem uma história em si. É menos trágico, claro, afinal, se mais alguém morresse, com certeza o personagem Bambi seria o personagem de animação mais dramático da história do Cinema. Bambi 2 é um filme singelo, que vale mais a pena para revermos os personagens tão queridos do passado antes de querermos analisá-lo como um filme sozinho, com uma história plausível e interessante.

O pai de Bambi, o Grande Príncipe, tenta achar uma nova ‘mãe’ para Bambi, visto que ele tem muitos afazeres em suas fiscalizações na floresta e não tem tempo para cuidar de seu filho. E a historinha é somente sobre as artes que Bambi e seus amigos (os cativantes Tambor e Flor, em especial) fazem durante esse tempo. E, obviamente que o pai de Bambi começa a se afeiçoar ao filho. Algumas cenas de ação, do pavor causado pelo Homem (certamente um dos maiores inimigos do Cinema, eleito até mesmo pelo American Film Institute como tal) que nunca aparece na tela, mas sempre ameaça a paz na floresta, não são tão marcantes quanto no longa de 1942, mas mesmo assim são funcionais.

Com algumas canções bem agradáveis, Bambi 2 certamente é mais do que o esperado para uma continuação da Disney. Uma exceção à regra que toda continuação é ruim e deve ser desprezada. Em cada fotograma podemos ver o carinho e a essência colocados no filme, os mesmos conceitos que Walt Disney fez questão de colocar no Bambi original. Essa continuação demorou quatro anos para ficar pronta e, certamente, a espera valeu a pena.

fevereiro 10, 2006

Syriana: A Indústria do Petróleo (2005)

 


Título original: Syriana
Direção: Stephen Gaghan
Sinopse: Muito petróleo significa muito dinheiro. Muito dinheiro mesmo. E este fato libera um esquema de corrupção que se estende desde Houston, passando por e Washington, até o Oriente Médio. E envolve industriais, príncipes, espiões, políticos, exploradores de petróleo e terroristas em uma teia mortal de ações e reações enganosas. Este thriller de ação inteligente e envolvente exige toda a atenção e os nervos do espectador, em intensidade narrativa que não permite descuido por um segundo sequer.


Todos estão louvando Syriana: A Indústria do Petróleo pelo seu cunho político e complexidade. Afinal, a moda é falar mal da política americana. E de tão complexo, o filme se torna uma experiência confusa e muito, muito arrastada. A paciência do espectador é testada aos limites, seja por estarmos vendo uma trama que nunca se desenvolve ou seja por tentar entender o que cada personagem está querendo fazer, coisa que raramente se explica em tela.

Talvez Syriana funcione melhor fora das telas do que nelas. Aliás, na tela, nada funciona. Onde está a tão aclamada ‘interpretação’ de George Clooney que lhe valeu a indicação ao Oscar? Ele só apanha e faz algumas coisas aqui e ali, sem tempo para interpretações. E por falar em apanhar, Syriana traz uma das cenas mais impressionantes de tortura que já vi. Ponto final. O filme seria só isso. Se em 2003 falaram que o Oscar de Melhor Atriz foi para Nicole Kidman só porque ela colocou um nariz falso, se Clooney ganhar o Oscar esse ano, será, com razão, meramente porque ele está usando uma barba, que não é de seu costume.

Muitas pessoas saíram da sala de cinema antes mesmo de se completar uma  hora de projeção. É isso que dá tentar bombardear as mentes do povo com fatos políticos completamente desinteressantes. E o pior, de forma aleatória. Existem modos e modos de se mostrar crítica política. Esse ano mesmo temos o excelente exemplo de Boa Noite e Boa Sorte, que trata de uma denúncia política, mas feita de forma ágil e concisa. Já Syriana não tem nada disso.

Por diversas vezes o filme tenta mostrar um pouquinho de drama, como em algumas cenas do personagem de Matt Damon (que também não acrescenta nada à história), mas o cunho é quase em sua totalidade político, textualmente e graficamente desinteressante. Vários outros longas, como JFK: A Pergunta Que Não Quer Calar, também eram 100% políticos, entretanto, prendiam o espectador, o que nunca acontece aqui, visto que o grande número de personagens em histórias confusas e independentes nunca parecem chegar a lugar algum.

O diretor Stephen Gaghan (roteirista do aclamado Traffic) é o grande culpado de Syriana ser esse monte de fotogramas sem sentido. Para os antiamericanos de plantão, esse filme será considerado uma obra-prima, já que qualquer mínima coisa que mostre algo ruim dos EUA é considerado um marco no cinema (assim como o pavoroso e tendencioso Fahrenheit 11 de Setembro). Um aviso para quem não quer se entediar: não vá assistir a Syriana. Ou, se você sofre de insônia, pegue a última sessão do dia e bons sonhos!

fevereiro 03, 2006

O Segredo de Brokeback Mountain (2005)

 


Título original: Brokeback Mountain
Direção: Ang Lee
Sinopse: Um conto de amor sobre o relacionamento de dois jovens, Ennis Del Mar, um rancheiro de Wyoming e Jack Twist, um vaqueiro de rodeio, que se encontram no verão de 1963, e nos anos seguintes lutam secretamente para entender e se manter o amor que nutrem um pelo outro.


O Segredo de Brokeback Mountain pode funcionar de diversas formas, mas definitivamente não funciona como um romance tradicional, só alterando os protagonistas – dois homens. Bem, essa é a forma que o filme foi vendido (e aclamado) mundialmente.

Tecnicamente espantoso e artisticamente muito falho. Todos estão indo na onda de que o filme é perfeito. Longe disso. Ang Lee conseguiu nada mais do que um trabalho mediano. Explico porque. A premissa era justamente ser ‘mais um filme de amor’. Pois eis que O Segredo de Brokeback Mountain se mostra um filme de amor inverso: começa com uma cena de grande impacto e vai declinando, declinando, declinando... até chegar ao fundo do poço, num final previsível, ao final de longuíssimos e intermináveis 134 minutos.

Indiscutivelmente mereceu pelo menos duas das indicações que recebeu ao Oscar: Fotografia e Trilha Sonora Original. Mas, como já mencionei, a parte artística é tão simplória que chega a irritar: Heath Ledger faz um cowboy que reprime seus desejos interiores. Mas reprime tanto que nem dá pra se notar quais desejos são esses, resultado de uma interpretação equivocada. Chama mais a atenção o que ele tinha dentro da boca (estranhamente inchada) e o modo como fala pra dentro do que realmente a sua ‘interpretação’. Jake Gyllenhaal não está melhor aqui do que em outros papéis como em Donnie Darko ou até mesmo no recente Soldado Anônimo (injustamente desprezado aqui no Brasil). O destaque das atuações deve-se a Michelle Williams, melhor do que os dois cowboys principais juntos. Sua personagem, Alma, é na verdade o centro e a causa de tudo que acontece (e não acontece) no longa.

A falta do impulso inicial do amor, dos detalhes que fazem a diferença antes do sexo em si é o que estraga O Segredo de Brokeback Mountain logo no primeiro ato. O filme contribui para o pensamento geral da população de que os gays são criaturas depravadas, taradas e maníacas sexuais. O que tanto se falou antes da estreia desse filme, que mostraria que gays amam igual aos heterossexuais, não foi mostrado aqui. Pelo menos eu não vi nada disso. Ao contrário, o que chama a atenção – desviando o espectador da história – é como eles se atracam na tenda, como se atracam na escada (e como, após vinte anos, eles não envelhecem!), enfim, como se pegam em vários lugares (como dito, à medida que o tempo passa, cada vez de forma mais branda) e o amor raramente aparece. Sim, raramente. Ele não é nulo, aparece, mas SEMPRE no personagem Ennis Del Mar (Ledger).

Não é perturbador, não é inovador, mas, como explicado, também não é ‘mais do mesmo’. Difícil descrever O Segredo de Brokeback Mountain. É um filme bonzinho, na média, não melhor que outros trabalhos de Ang Lee. Não merecia esse alarde todo que está sendo feito e faz pior: faz o grande público (não-homossexual) continuar com a imagem ‘estranha’ ou ‘errada’ que tem dos gays. Oito indicações ao Oscar soam como algo completamente absurdo. Resumindo, Muito Barulho Por Nada.  

Edison: Poder e Corrupção (2005)


Título original: Edison
Direção: David J. Burke
Sinopse: Na promissora cidade de Edison, o ambicioso repórter investigativo em início de carreira Josh Pollack descobre fraudes na maior unidade de polícia da região. Enfrentando a resistência de seu editor Moses Ashford, ele acaba demitido por tocar no ponto nevrálgico que é a corrupção dentro do sistema de combate ao tráfico de drogas. Sem ter como sustentar a história, Pollack precisa se aliar ao promotor local Wallace, que aceita aprofundar essa investigação.


O que mais chama a atenção em Edison? "Nossa, quantos atores de renome!" Exatamente. Vemos Morgan Freeman e um cabeludo Kevin Spacey. E... Justin Timberlake. É, o ex-NSync é o principal personagem desse longa, ao lado de LL Cool J. Tudo de mais bizarro está aqui. Conta até com a participação de um (dos milhares) representante da família Wayans (de As Branquelas – sem comentários).

         Sabe-se lá o que o péssimo diretor David J. Burke tinha em suas mãos para ameaçar Freeman e um ridículo Kevin Spacey, e os convencer a participar dessa abominável produção. Tudo em Edison é de mau gosto: lutas absurdas, centenas de tiros sendo disparados na cara dos personagens sem que ninguém (importante) seja atingido, ou assassinatos graficamente violentos sem necessidade.

         A cidade fictícia de Edison (apesar de obviamente filmado em Vancouver, em nenhum momento isso é escondido do público) era uma cidade onde a violência imperava. Atualmente, a violência fica por conta da polícia extremamente corrompida da problemática cidade. É por causa de um desses casos de corrupção que o jornalista de um pequeno periódico, Pollack (Timberlake), começa a farejar que algo de errado está acontecendo. Enfim, isso só serve para nos mostrar muito sangue e um herói patético vivido pelo ex-boy band. O mais impressionante é que Timberlake nem estão TÃO mal assim como era de se esperar. Sua parca atuação é culpa de um roteiro sem pé nem cabeça (escrito pelo mesmo Burke), e isso afeta não só ele mas até mesmo os veteranos e consagrados atores.

         Morgan Freeman é Ashford, o diretor do jornal onde o entusiasmado (e imbecil) Pollack trabalha. Freeman nada mais faz do que beber e dar uns gritos em todo o tempo de projeção. E Kevin Spacey... o que falar? A peruca pavorosa que ele usa chama mais atenção do que qualquer uma das poucas coisas que pronuncia ao longo de 97 minutos de pura bobagem.

         Burke usa alguns aspectos de filmagem que são nulos em estilo e elegância. Planos simplesmente pavorosos, como a insistência em focar dois personagens distantes um do outro em uma imagem só: um Spacey sempre de perfil a la Rede Globo, ou seja, uma cara gigante que preenche metade da tela e um Freeman perdido no fundo da cena. Totalmente deselegante e, como já mencionado, desnecessário, é a frequente aula de anatomia que o diretor nos proporciona com cérebros explodindo por todos os lugares.

         Certamente tudo deveria ser relevado se Edison fosse feito para ser uma comédia. Mas não serve nem para isso. Em alguns momentos chegamos a rir do que acontece na tela. E isso, sinceramente, não é um bom sinal. Vemos o esforço dos atores em demonstrar serviço independentemente da horrorosa direção (e até de Justin Timberlake, acreditem!), mas tudo é feito em vão. Principalmente a ida ao cinema para ver essa bomba.

Boa Noite e Boa Sorte. (2005)

 


Título: Good Night, and Good Luck.
Direção: George Clooney
Sinopse: Ambientado nos Estados Unidos dos anos 50, durante os primeiros dias de transmissões jornalísitcas, o filme conta os conflitos reais entre o repórter televisivo Edward R. Murrow e o Senador Joseph McCarthy. Desejando esclarecer os fatos ao público, Murroe e sua dedicada equipe desafiam seus patrocinadores e a própria emissora para examinar as mentiras e amedrontadoras táticas perpetradas pelo Senador durante sua "caça às bruxas" comunista.


Enfadonho para muitos, uma obra-prima para alguns. A nova incursão de George Clooney na direção é um acerto por completo. Ao contrário do que possa parecer, Boa Noite e Boa Sorte não é um filme pequeno de interesse restrito. É mais do que certo que a grande maioria do público brasileiro não vivenciou e conviveu com as atitudes insanas do senador McCarthy nos anos 50 nos Estados Unidos. Mas alguém com o mínimo de imaginação pode imaginar o que isso representava à época.

Boa Noite e Boa Sorte é, antes de tudo, um grande exercício de estilo, com uma direção impecável (ponto para Clooney depois de Confissões de uma Mente Perigosa), fotografia igualmente impressionante e uma edição que, de tão boa, não foi indicada ao Oscar, como é de praxe acontecer. Clooney fez um pseudodocumentário nessa fita. Ágil e instigante, nos transporta para cada momento daquela época em que a sala de produção da CBS para o programa de TV de Edward Murrow era um planejamento de guerra. Uma guerra a favor da liberdade de expressão, que estava sendo tão mutilada por Joseph McCarthy.

Artisticamente absoluto e único. Estamos na produção do programa e sentimos o que Murrow sente. Respiramos fundo a cada vez que ele fala "boa noite e boa sorte" e ficamos aliviados a cada "encerrado" que o jornalista Friendly (interpretado por Clooney) fala a cada final de programa. Cada programa, uma bomba em McCarthy. 

Certamente o melhor do longa se encontra nessa sensação de pseudodocumentário. A forma com que os atores – um elenco surpreendente, por sinal – interagem com as imagens de arquivo que são inseridas ao longo da projeção é incrivelmente real, se devendo ao impressionante trabalho de montagem aliado a um roteiro sem furos e digno de Oscar (pena que provavelmente não irá ganhar). De todo o elenco, David Strathairn se sai um perfeito Edward Murrow, tenso a cada programa que ia ao ar, fumante inveterado que levou a frente seus pensamentos sem medo das consequências, diferentemente de seu companheiro de emissora, Don Hollenbeck (também perfeitamente interpretado por Ray Wise). 

Pode-se dizer que Murrow venceu. E assim como Clooney, que fez dessa simples (e ao mesmo tempo complexa) história uma pequena obra-prima. Que, infelizmente, poucos darão o valor que realmente tem.

dezembro 06, 2005

Memórias de uma Gueixa (2005)

 


Título original: Memoirs of a Geisha
Direção: Rob Marshall
Sinopse: Chiyo foi vendida a uma casa de gueixas quando ainda era menina, em 1929, onde é maltratada pelos donos e por Hatsumomo, uma gueixa que tem inveja de sua beleza. Acolhida por Mameha, a principal rival de Hatsumomo, Chiyo ao crescer se torna a gueixa Sayuri. Reconhecida, ela passa a desfrutar de uma sociedade repleta de riquezas e privilégios até que a 2ª Guerra Mundial modifica radicalmente sua realidade no Japão.


- "Sayuri, tudo que eu fiz foi porque sempre te amei!"

- "Oh, eu também sempre te amei!"

Só faltou aparecer "FIM" e a Glória Perez agradecendo a todos os envolvidos na produção de mais um sucesso de audiência da TV. Memórias uma Gueixa é isso: pura novela das oito. Se à época do lançamento de Olga nos cinemas brasileiros os críticos reclamavam de que Jayme Monjardim deu um tom um tanto quando ‘novelesco’ à história da personagem-título, o que dirá de Rob Marshall, o queridinho de Hollywood  que estreou no cinema já com o Oscar de Melhor Filme pelo irregular Chicago e agora nos apresenta a saga de uma prostituta (quer dizer, gueixa) ao longo dos anos.

A diferença é que talvez Olga se encaixasse nas produções da Rede Globo e Memórias de uma Gueixa, no SBT, com direito à dublagem dos personagens e tudo. O filme tem um início que engana o público. Parece que a história vai vingar, mas não. Artisticamente falando, a única coisa que está boa é a estreia em um papel principal da pequena Suzuka Ohgo como a aspirante-forçada a gueixa Chiyo. E só. E tecnicamente, sim, o filme é o que realmente dizem (e “uau, concorre a vários Oscar!” – ironia), tem uma fotografia belíssima, ainda que restrita a poucas cenas, uma montagem interessante, ainda que restrita a poucas cenas, uma trilha sonora interessante, ainda que restrita a poucas cenas, uma direção de arte interessante, ainda que restrita a poucas cenas... cansou de ler a mesma frase uma vez atrás da outra? Isso é pra exemplificar exatamente como é a sensação de assistir às intermináveis duas horas e vinte e cinco minutos de novela mexicana, quer dizer, japonesa, quer dizer, chinesa, de Memórias de uma Gueixa.

Por que essa confusão? Por que chinesa? Eu, desavisado, estava percebendo algo ‘errado’ desde o início da projeção. É, não só as ruas (e as bicicletas), montadas pela direção de arte desse filme nos fazem estar dentro de uma cidade da China, mas bem como as principais atrizes – todas chinesas. É nesse momento que o espectador que sempre falou que “orientais são todos iguais” vê que estava redondamente enganado. Com certeza o Japão não está com escassez de atrizes para suprir a necessidade de uma produção como essa. Infelizmente temos que aturar essa ‘mentirinha’ por mais de duas horas, rolando no assento do cinema à espera de uma sorte que não vem, de um final inesperado que nos livre de toda a tortura que esse filme represente.

O mestre John Williams se salva em alguns bons momentos de trilha – poucos, por sinal. Apesar de sua indicação dupla ao Oscar, o verdadeiro destaque em seu trabalho nesse ano é em Munique, com uma trilha muito mais pensada e adequada do que essa comum, cheia de clichês (sim, até na música).

Personagens maus são extremamente maus, sem pedir nada em troca.  Personagens bons são extremamente bons, mas imbecis. A profundidade é nula em qualquer personagem da trama. Se é que existe uma trama, a não ser a parca historinha de como uma menina se transforma em uma prostituta de luxo, pela qual os homens interessados fazem um leilão a fim de desvirginá-la. Para quem não conhece esse processo de formação de gueixas (como eu e 99% da população brasileira), o filme deixa bem claro que elas são tão prostitutas quanto aquelas que elas mesmo abominam em alguns pontos do filme.

No final das contas, Memórias de uma Gueixa dá sono e cansaço. Se for pra assistir a novela malfeita, tenho SBT em casa mesmo pra isso, não preciso ir ao cinema. E vem cá, aquela lente de contato azul não engana ninguém.

novembro 18, 2005

Stoned: A História Secreta dos Rolling Stones (2005)

 


Título original: Stoned
Direção: Stephen Woolley
Sinopse: Uma crônica da vida sórdida e da morte suspeita de Brian Jones, cofundador dos Rolling Stones, que foi encontrado no fundo de sua piscina semanas após ser demitido da banda.


Não sendo fã doente dos Rolling Stones, nem sabendo a fundo a história deles, fico limitado a analisar essa obra como mais um filme. Morte misteriosa? Drogas? Assassinato? Parece que esse é (ou era) o enigma que ronda a morte de Brian Jones, um dos fundadores (e autointitulado líder) dos Stones, nos anos 60.

Dirigido pelo estreante Stephen Woolley, que já produziu outro filme de rock e já clássico, Backbeat: Os Cinco Rapazes de Liverpool, sobre, coincidentemente, a morte de um dos membros de outra banda, os Beatles, também nos anos 60, erra um pouco a mão na história de Jones, que se arrasta um pouco e agrada somente aos fãs obsessivos da banda.

O longa só se interessa em mostrar as loucuras (ou excentricidades, como queiram) do roqueiro, mas de forma muito confusa para quem não é familiar com a história. Muitos vai-e-vem no tempo deixam a cabeça do espectador ‘normal’ confusa e meio perdido nos acontecimentos. Mais uma vez aparece na tela de forma excelente Paddy Considine, o grande ator britânico da vez em filmes independentes (Terra de Sonhos, Meu Amor de Verão), que interpreta o pedreiro que, a princípio, iria somente fazer algumas reformas na antiga casa de Brian Jones (Leo Gregory, também muito bom), mas que de alguma forma acaba se tornando amigo do músico, até, no final das contas, assassiná-lo.

Excessos de cenas repetidas, desnecessárias, de nudez sem propósito, aos moldes de 9 Canções, mas não contando com sexo explícito como no filme citado, como Brian Jones dormindo aqui e ali (e uma câmera focando BEM ali) ou então de um Mick Jagger (Luke de Woolfson, muito parecido com o Jagger real) igualmente nu. Drogas, drogas, drogas, drogas e mais drogas. Uma hora perdemos a paciência com essa história tão repetitiva e pensamos ‘ok, já entendemos que ele usava todos os tipos de drogas’. Uma cena de sexo e uma cena de uso de drogas serviriam. Mas aí o filme teria somente uns 20 minutos e nada mais.

Justamente por essa montagem não linear que aqui se torna completamente inútil é que o filme desmorona. O espectador mediano perde o interesse fácil, fácil pela história, visto que já sabemos qual será a conclusão. A cena é mostrada no início e, depois, no final, a revemos novamente em sua integridade. Mais uma coisa desnecessária.

Stoned é um conjunto de pequenos detalhes que, apesar de cumprir seu papel e deixar bem claro para o público leigo quem foi Brian Jones e como era sua relação com seus companheiros de banda (especialmente com Keith Richards), irrita em vários momentos e nos deixa com uma sensação de estafa ao final. Mas, se o papel era nos fazer simpatizar com a ‘causa’ de Jones, o filme é extremamente falho, pois é, no final das contas, o pedreiro Frank que acabamos ‘apoiando’, e quase nos sentindo aliviados de ver como ele corajosamente conseguiu se livrar do estorvo que Jones parecia ser.

novembro 02, 2005

Wolf Creek: Viagem ao Inferno (2005)

 


Título original: Wolf Creek
Direção: Greg McLean
Sinopse: Liz Hunter (Cassandra Magrath) e Kristy Earl (Kestie Morassi) são duas mochileiras inglesas que estão em meio a uma viagem, juntamente com Ben Mitchell (John Jarratt). Ao chegar no Parque Nacional Wolf Creek, eles observam a paisagem da 2ª maior cratera do mundo. Quando decidem ir embora enfrentam problemas, pois seus relógios e o carro param de funcionar. É quando recebem a ajuda de um caminhoneiro, que passa pelo local e lhes oferece carona. Porém o que eles não contavam é que seriam levados a um acampamento localizado em uma mina abandonada, onde a viagem do trio se transforma em um grande pesadelo.


Wolf Creek: Viagem ao Inferno parece (mas não é) um novo O Massacre da Serra Elétrica. Bem inferior ao filme americano, esse longa australiano não traz nada de novo ao espectador. São somente as mesmas cenas de terror que já conhecemos. Esse filme parece uma coletânea de cenas de filmes já feitos anteriormente, desde o próprio Massacre, passando por Jogos Mortais ou qualquer outro filme do gênero que você conseguir imaginar.

Prova de que é mais do mesmo: um grupo de jovens (clichê #1) vão de carro, sozinhos (clichê #2) para um lugar isolado do mundo, no interior (clichê #3) para conhecer a famosa cratera que dá nome ao filme, mas lá o carro apresenta problemas e deixa de funcionar (clichê #4). Aparece então, no meio da noite, um homem que parece bonzinho e está os ajudando (clichê #5), mas que, no final das contas, é um maníaco que quer matar a todos (clichê #6).

Esse conto de seis medíocres clichês pelo menos se mantém. Não é uma desgraça completa pois seu roteiro é até bem amarrado e realmente proporciona cenas que assustam o espectador desavisado. É bem aquele tipo de ‘sei o que vai acontecer, mas mesmo assim me assusto’. Bem, isso é ponto positivo para Wolf Creek, já que vemos por aí uma quantidade imensa de filmes de terror que não conseguem dar o menor susto (vide o pavoroso Escuridão).

Chama a atenção também o fato de que Wolf Creek se difere da maioria dos filmes de terror em um ponto: a apresentação dos personagens, parte mais que obrigatória em qualquer longa de terror com adolescentes, é bem extensa. E também o número de pessoas. Aqui são só três (duas meninas e um rapaz) que irão confrontar o serial killer, e não uma gangue enorme (como, por exemplo, em A Casa de Cera), o que limita o desenvolvimento do já manjado estereótipo desse tipo de fita. Ao ‘perder tempo’ traçando a personalidade de cada um, conseguimos ver, em nossas mentes, praticamente o futuro de cada um ao término da hora e meia de tortura nas mãos do psicopata Mick Taylor (John Jarratt, que não apresenta nada de mais). Mas aí é que está o engano. E, por consequência, o primeiro não clichê de Wolf Creek, e, talvez, sua maior virtude. O que pensamos está errado.

É no terceiro ato que nos damos conta que o filme está tomando um rumo diferente do que imaginávamos, e o interesse do público aumenta à medida que o final se aproxima. Mas o timing está um pouco fora de lugar e esse pseudo-plot twist não funciona da maneira como deveria ser. Mas é o suficiente para fazer de Wolf Creek uma total perda de tempo uma experiência ao menos... satisfatória.

outubro 21, 2005

A Garota da Vitrine (2005)

 


Título original: Shopgirl
Direção: Anand Tucker
Sinopse: Baseado no livro best seller de Steve Martin, "A Garota da Vitrine" (Shopgirl) é uma história de amor engraçada e comovente nos tempos modernos. O filme mostra três vidas de pessoas em trajetórias diferentes em busca de uma coisa em comum. Mirabelle (Clair Danes) é uma garota simples que trabalha numa loja de luvas quase sem movimento na Saks Fifth Avenue em Beverly Hills. Uma artista que faz o possível para pagar o mínimo do cartão de crédito e os empréstimos para estudantes, ela vai se mantendo assim até que um dia se vê atraída por um cinquentão rico e bonito que se chama Ray Porter (Steve Martin). Ao mesmo tempo Mirabelle está sendo paquerada por Jeremy (Jason Schwartzman), um solteiro nem tão refinado ou bem sucedido quanto Ray. Quando o destino chega, pode não ser tudo como nos contos de fada, porque no final das contas... a vida é assim.


"Relacionamentos nem sempre caem como uma luva." A tagline desse romance um tanto quanto inusitado por várias razões "cai como uma luva" na produção. Produzido, escrito e estrelado por Steve Martin, baseado em seu próprio livro (ufa!), A Garota da Vitrine é bem simplório, por algumas vezes um pouco duvidoso quanto à sua validade, mas o tom geral é de aprovação. Um filme bem simpático.

É mais um filme com narração em off, do próprio Steve Martin (nossa, ele REALMENTE é onipresente nesse filme). Filmes de romance com narradores escondidos costumam ser uma fria, é uma clara indicação da superficialidade e clima de "mais do mesmo". Mas A Garota da Vitrine é completamente verossímil e consegue aproveitar todos seus 104 minutos sem rodeios.

Mirabelle (interpretada por Claire Danes, com uma interpretação mediana, longe de sua esplêndida atuação em A Bela do Palco, por exemplo, mas adequada) é uma vendedora de luvas (!) na Sak’s Fifth Avenue em Los Angeles. Ou seja, ela pouco trabalha. Sente-se sozinha naquele balcão que poucos param para olhar. Ela acaba por conhecer o quase trash Jeremy (Jason Schwartzman, de A Feiticeira e Huckabees: A Vida É uma Comédia) e força um relacionamento com ele, com o claro intento de não ficar sozinha. Mas um dia aparece Steve Martin (mais uma vez!), um homem muito rico que se encanta por ela. Mas nada é perfeito. E é sobre essa não-perfeição o ponto-chave do longa.

Mais interessante do que parecia logo de cara, vemos a jornada de cada personagem em busca do que realmente quer. Cada um terá um destino, totalmente diferente do que o espectador mais premonitório pudesse imaginar. Claro, existem grandes clichês, principalmente na parte final do filme, mas esses mesmos clichês são trabalhados bastante e nos são apresentados de uma forma bonita, plausível. E aí que a narração em off de Martin tem um papel importantíssimo. Milagrosamente ela consegue envolver o espectador de tal forma de acabamos fazendo uma fusão da voz dele com Ray Porter (seu personagem no filme) e, de certa forma, somos até empáticos com ele, mesmo que suas intenções por vezes sejam bem duvidosas.

A surpresa da vez é (mais uma vez!) Steve Martin, que, acreditem ou não, consegue ter créditos como ator dramático. Talvez porque ele, mais do que qualquer outro, conheça o personagem Ray Porter e saiba dar o tom exato a ele. Martin está melhor aqui do que em todas suas últimas dez produções juntas elevadas ao quadrado. Seguramente ele deveria seguir por essa linha e passar a ter reconhecimento, ser levado Aa sério", o que é bem difícil nesse momento da vida, já que sua imagem será constantemente associada a seus ‘clássicos’ cômicos (Parenthood, O Pai da Noiva etc).

A Garota da Vitrine é isso: simples e agradável. Recomendado mesmo para quem não gosta de filmes de romance. Vale dizer que Steve Martin está preparando mais um filme, dessa vez baseado em uma peça sua, Picasso at the Lapin Agile, cujo roteiro também será escrito por ele... e estrelado por ele também (!). É, realmente Steve Martin está com tudo.

outubro 20, 2005

O Sol de Cada Manhã (2005)

 


Título original: The Weather Man
Direção: Gore Verbinski
Sinopse: Apresentador da previsão do tempo ,em Chicago, recebe oferta de trabalho em uma rede de TV ,em NY. Mas, ele é divorciado e, antes de se mudar para a Big Apple, terá de resolver uma série de problemas com a ex-mulher e os filhos.


A vida normal de uma pessoa normal que tem problemas normais como nós, normais. Esse é Dave Spritz, o homem do tempo de uma rede de TV baseada em Chicago. Sua vida está para mudar. Em algumas áreas, pra melhor: uma chance de emprego em Nova York, para receber mais de um milhão de dólares por ano. Já em outras, pra pior: seu pai está morrendo.

O Sol de Cada Manhã é composto de pequenos grandes momentos que, juntos, formam uma composição memorável de uma simples vida. E, principalmente, da solidão. Nicolas Cage carrega esse filme quase que por completo sozinho, contrabalanceado por uma performance surpreendente (e comovente) de Michael Caine, na pele do pai de Dave, que está morrendo.

Através da constante narrativa em off de Dave, sabemos tudo o que ele pensa no seu mais profundo interior e todo o por que de suas ações. Somos, dessa forma, imersos na mente de um personagem que poderia ser qualquer um de nós. Desprovido por completo de clichês, o que acontecerá no minuto seguinte em O Sol de Cada Manhã é imprevisível. Até mesmo porque, ao mesmo tempo que tudo na vida de nosso ‘herói’ é comum e familiar para todos nós, o inverso acontece. Ele tem uma vida fácil, como o próprio diz, trabalha duas horas por dia na leitura do prompter e tendo um pouco de carisma forjado para ser simpático com o público, sempre sorridente.

Mas essa é a vida de Dave na tela. Fora dela, ele é ridicularizado pelas pessoas, que sempre atiram alimentos (!) nele. Sua vida familiar, um desastre. Apesar de fazer de tudo para se dar bem com sua ex-mulher, seus esforços são em vão. O mesmo acontece com sua filha. Os únicos familiares com quem ele consegue interagir, mesmo que pouco, são seu filho e seu pai que está prestes a morrer.

Cage consegue fazer um personagem que conquista a empatia do público, que compreender completamente sua imensa solidão e suas tentativas desesperadas de conseguir o afeto dos que estão perto dele. Prova de que um filme não precisa de uma história magnífica e original para ser sensível e beirar a perfeição, cinematográfica e emocional. Dirigido com esmero por Goran Verbinski, um diretor diferente a cada nova produção. É, o mesmo diretor desse magnífico drama introspectivo dirigiu coisas completamente diferentes, como Um Ratinho Encrenqueiro, A Mexicana, O Chamado e está no comando da trilogia de Piratas do Caribe.

O mais incrível é como o humor é presença constante nesse longa, mesmo em cenas completamente dramáticas. Rimos por falta de outra opção. Rimos pelo desespero. Rimos pelo que acontece não só com Dave, mas com todos nós. Rimos, mas também choramos. Um filme como poucos, que de certa forma nos dá algumas razões para pensarmos e encararmos de uma outra forma os nossos dias que se passam e ‘o sol de cada manhã’. Porque afinal nós todos somos um pouco ‘homens do tempo’.

setembro 30, 2005

Crime Delicado (2005)

 


Título original: Crime Delicado
Direção: Beto Brant
Sinopse: Antônio Martins é um crítico teatral. Observador não somente de peças, mas também de pessoas, tem seus conceitos mudados quando conhece Inês, cuja personalidade é oposta à do crítico. Desinibida, Inês, que não tem uma perna, entra na vida de Antônio de forma a desestruturá-lo ao despertar uma paixão inédita no cínico e frio jornalista. Ela mantém uma relação ambígua com o pintor José Torres Campana (Felipe Ehrenberg), famoso por seus quadros eróticos que têm como modelo o próprio artista e a jovem. A relação desperta ciúmes doentio em Antônio e o conduz em uma espiral de ansiedade, ciúmes, perturbação e ilusão.


Por mais que todos estejam criticando bem o novo trabalho de Beto Brant, ele se mostra, na realidade, uma experiência de "como testar sua paciência em um cinema lotado". Desanimado pelo trailer, mas animado pela presença de Brant e do elenco na sessão de pré-estreia, me joguei dentro desse filme. E que tombo.

Gostaria de saber até quando o cinema brasileiro vai continuar tratando o sexo como um grande tema profundo a ser tratado. Já por essa premissa, Crime Delicado é mais do mesmo. Brant pode ser considerado cult por seus trabalhos anteriores (especialmente pelo já quase Hollywoodiano O Invasor), pode se sair muito bem em tramas policiais, mas, aventurando-se no terreno do drama, ou melhor, da nudez e sexo sem propósito nas telas, o diretor é um erro certo (se é que isso pode ocorrer).

Depois de muito tempo com cenas completamente desprezíveis e  desnecessárias, temos um bom momento em todo o longa, que é certamente nos diálogos do bar, sem conexão direta com a história, mas que ajudam numa "compreensão" do todo.

Todo o elenco (com exceção da estreante Lilian Taublib, que está ótima) parece estar lendo o script ali na sua frente. Falas decoradas, muitas frases de efeito, muitos palavrões. O antipático Marco Ricca não consegue conquistar o espectador em nenhum momento. Isso é ainda pior pois a redenção de seu personagem depende, mais no final da história, dessa empatia do público. É um filme nacional vazio, feito aos moldes de outros como Meu Tio Matou um Cara ou Sal de Prata no qual o sexo justifica tudo. É filme para pessoas que estão atrás de verem outras pessoas nuas na tela. E só.

Obviamente, como uma grande parcela das produções nacionais, Crime Delicado ainda conta com duas coisas extremamente desnecessárias: um final tão vazio quanto todo o filme e a presença irritante do "venerado" Matheus Nachtergaele, que tem o poder de estragar tudo onde põe o dedo. 

Enfim, nada funciona. Pior artisticamente, menos pior tecnicamente. Mas mesmo assim a tão dita fotografia "fenomenal" do filme se resume a planos e ângulos mais do que óbvios. Talvez tenham comentando tanto da fotografia porque existem alguns momentos em preto-e-branco no longa... e a crítica tem que elogiar, porque vocês sabiam que o rolo de filme preto-e-branco está pela hora da morte? Afinal, Brant precisa de boa bilheteria para comprar o leitinho das crianças. Mas, infelizmente, não vou contribuir para isso...

Claro, e por último, o tal "crime delicado" do título é um estupro. Que delicadeza (e sutileza), não é mesmo? E agora com licença, porque preciso ler a minha crítica em voz alta para todos aqui nessa sala vazia ficarem sabendo o que eu escrevi... aprendi essa técnica revolucionária de comunicação com o crítico Antônio (Marco Ricca). Obrigado, Crime Delicado. O que seria de mim sem esse filme?

setembro 26, 2005

ABC do Amor (2005)

 


Título original: Little Manhattan
Direção: Mark Levin
Sinopse: Gabe, um aluno de sexta série, é parceiro de Rosemary na aula de karatê. Apesar de conhecê-la há muito tempo, Rosemary de repente se torna sua primeira paixão. Em casa, os pais de Gabe, Adam e Leslie, estão esperando que o divórcio seja finalizado. Gabe e Rosemary começam a namorar, mas ela está indo para um acampamento em breve, ele entra em pânico. Suas tentativas de conquistá-la não funcionam, deixando-o confuso e infeliz.


Mark Levin, estreante na direção, mas autor do conhecido por aqui Wimbledon: O Jogo do Amor, reinveste no romance. Dessa vez de uma forma diferente, acompanhando os dias do menino Gabe, muito bem interpretado por Josh Hutcherson (de Zathura: Uma Aventura Espacial) e sua progressão de sentimentos, desde o já conhecido ‘ódio às meninas’ que todos os meninos tem quando crianças, até sua completa paixão por sua colega Rosemary (Charlie Ray, estreante meio perdida nesse papel).

O filme todo nos é apresentado exclusivamente sob a ótica de Gabe, que é o narrador dessa fábula engraçada, leve e cativante. Narrações, ainda mais feitas na voz de uma criança, muitas vezes tendem a comprometer toda a estrutura de um longa. Mas felizmente isso não acontece em ABC do Amor, que, além de tudo, é uma declaração de amor não só de Gabe a Rosemary, mas também dele (e do diretor) a Nova York.

Definitivamente o filme não existiria se não fosse a mágica proporcionada pelo cenário em que se passa. ABC do Amor é a cara de Nova York e não poderia se passar em outro lugar. O título original, Little Manhattan, se dá devido exatamente a isso: o fato do filme ser dependente da locação. A "pequena Manhattan" em questão é o conjunto de quarteirões que o menino Gabe é autorizado por sua mãe a percorrer em seu (incansável) patinete. Mas claro que, com o seu primeiro amor aflorando, esses limites serão transpostos. Não só o físico, mas vários psicológicos.

Isso é o mais interessante de tudo: vermos como a mente de Gabe vai imaginando os acontecimentos e, antes de tudo, evoluindo e amadurecendo por causa dos sentimentos e das situações pelas quais ele está passando. Não, ABC do Amor jamais funcionaria se colocássemos um casal com mais de 20 anos na tela. O filme é repleto com todos os clichês possíveis de filmes românticos e só funciona porque as crianças são os personagens principais. Todos os personagens adultos do filme são apagados, até mesmo Cynthia Nixon (a Miranda de Sex and the City), que interpreta a mãe de Gabe. Notar também a apagada presença de Talia Balsam (Jackie, mãe de Rosemary), filha do ator Martin Balsam (de clássicos como Psicose), que já foi casada também com George Clooney. 

Bem enxuto e bem agradável de se assistir, ABC do Amor pode ser mais do mesmo. Na verdade é bem mais do mesmo. Claro, se levarmos em consideração que Gabe parece mais um adulto filósofo do que um pré-adolescente, o filme não funcionará. O segredo é desligar a mente e se deixar levar por essa deliciosa comédia romântica... inusitada.

setembro 16, 2005

Impulsividade (2005)

 


Título original: Thumbsucker
Direção: Mike Mills
Sinopse: Justin Cobb (Lou Taylor Pucci) seria um adolescente comum se não fosse o fato de que nunca conseguiu parar de chupar o dedo. Aos 17 anos, após ter tentado de tudo para se livrar do vício, ele finalmente resolve o problema através da hipnose feita pelo seu dentista, que tem ambições a psicólogo. O verdadeiro problema, porém, está apenas começando. Justin continua compensando suas frustrações pela boca, consumindo todo e qualquer tipo de droga, de maconha a remédios antidepressivos. Filho de pais que nunca saíram da adolescência, ele vai ter de aprender a crescer sozinho, nem que seja à força.


Essa infrutífera tentativa de fazer uma análise psicológica aprofundada da mente de um adolescente com problemas, tanto psicológicos quanto familiares, só não se torna um desastre total devido a dois pontos: todo o longa é escorado na irretocável interpretação do personagem principal por Lou Taylor Pucci e também pela trilha sonora, boa demais para esse tipo de produção.

É o tipinho de filme ‘quero-ser-cult’, tipinho que faz sucesso em festivais (como de fato passou na 29ª Mostra Internacional de São Paulo), conta com um elenco invejável: Tilda Swinton (As Crônicas de Nárnia, Constantine) faz a mãe de Justin (Pucci). O pai, Vincent D’Onofrio (Ed Wood, A Cela). Conta ainda com as participações, em papéis pequenos, de Keanu Reeves (Matrix, Alguém Tem Que Ceder) e Vince Vaughn (Penetras Bons de Bico, Psicose). Esse último, ridículo, por sinal, como em quase todos os filmes que participou até hoje.

Permeado com algumas cenas bizarras de sonhos de Justin, vemos sua trajetória desde adolescente problema até atingir o clímax com o que ele queria, porém, de maneiras ‘artificiais’. Impulsividade ainda tenta ser moralista em ter um final daqueles ‘felizes’, porém politicamente corretos, o que não seria o mais adequado para a história um tanto quanto dramática demais do adolescente Justin.

Temos a impressão de que ‘já vimos esse filme antes’, e, de fato, vimos mesmo. Várias vezes. Nada de novo é apresentado aqui, somente a compulsão do garoto em chupar o dedo (!) sempre que se encontra em problemas. Mas para isso existe o dentista-esotérico (!) dele (Reeves), que o ajuda através de hipnose (!). Do nada Justin deixa de ser tímido e antissocial para um grande orador, logo depois desistindo de tudo de maneira repentina e inverossímil, se entregando às drogas.

Um roteiro muito primário é a causa da derrocada dessa produção que, em mãos certas ainda teria como soar um pouquinho mais real e interessante. O estreante Mike Mills, que assina roteiro e direção, erra no tom e insiste nos mesmos clichês de outros filmes de adolescentes-problema. Até mesmo porque um pouquinho de pé no chão não faz mal a ninguém. A não ser que você acredite que um quadro cafona de lobos sob o luar seja capaz de curar uma ‘impulsividade’. Mas, salve Lou Taylor Pucci que consegue levar com firmeza seu personagem e fazer dele a única coisa complexa em toda a história. E, com isso, prender a atenção do público.

julho 05, 2005

Extremo Sul (2005)

 


Título original: Extremo Sul
Direção: Sylvestre Campe, Monica Schmiedt
Sinopse: Em março de 2003 cinco alpinistas montaram um acampamento no extremo sul da Terra do Fogo, um dos locais mais inóspitos do planeta. Enfrentando o frio, a chuva constantes, a neve e os ventos fortes, é realizada uma expedição para escalar o Monte Sarmiento, uma montanha pouco explorada mas bastante conhecida pela sua beleza, isolamento e perigo.


Dando continuidade aos excelentes documentários brasileiros que têm sido lançados nos últimos tempos, nos é apresentado dessa vez o gaúcho Extremo Sul. O que chama a atenção logo de cara é, com certeza, a excelente fotografia. Certo, filmes com paisagens naturais, ainda mais os que se passam em ambientes gelados, tendem a ter uma facilidade maior com a área da imagem na tela, e é o que acontece aqui. Extremo Sul, além da fotografia, conta com uma edição excelente. Não diria inovadora, mas mesmo assim, ótima, não linear em certos momentos, sincronizando fatos passados com o presente, e, o melhor de tudo, o som é de certa forma sincronizado com a edição. Coisa essa que cineastas como Quentin Tarantino adoram fazer, e que realmente chamam a atenção, e, quase na sua totalidade, funcionam.

Para poupar tempo, e também servindo como prenúncio do rumo que Extremo Sul irá tomar, por diversas vezes a tela é dividida em várias partes, já no início, com duas divisões, uma mostrando o alpinista principal e outra metade mostrando a paisagem belíssima da Patagônia; mais pra frente, a tela é dividida em muito mais partes, chegando a ter várias pessoas falando ao mesmo tempo. Confuso? Sim. Mas era pra ser assim mesmo.

O documentário tenta ser o mais acurado possível em termos de geografia, mostrando ao público (que, em sua grande maioria, não deve entender muito de alpinismo) a localização do Monte Sarmiento, no Chile, que é a montanha que deverá ser escalada.

Extremo Sul nos prende a atenção completamente até mais ou menos 20 a 30 minutos de projeção, quando começa a se tornar um tanto quanto cansativo, mas só até a entrada do segundo ato. Até vermos o que vai realmente acontecer, o público acha (assim como eu achei), que verá "mais do mesmo", pessoas subindo montanhas, chegando ao cume, todos comemorando no final, e por aí vai. À primeira vista, é meio (ou totalmente) óbvio que Extremo Sul irá tratar única e exclusivamente sobre o tema do alpinismo. Mas não. O que diferencia esse documentário de outros (como a excelente produção de 1998, o similar Everest) é que ele considera as relações humanas, e não somente montanhas de gelo. E tudo isso em meio à excelente trilha de Leo Menkin, e, principalmente, à contagiante canção tema  "Donde Vas", que, querendo ou não, fica impregnada na cabeça de quem vê o filme por até mesmo dias após o ter assistido.

A princípio, é meio que um "choque" vermos diretores (e eles tiveram trabalho!), equipe técnica e tudo mais na frente das câmeras. Existem certas situações que até vemos a diretora (e produtora) Monica Schmiedt gritar ‘ação’. Confesso que, no início, isso me pareceu meio que uma afronta à estética, como se o montador tivesse esquecido de cortar uns pedaços de filme do início do plano. Passada meia hora, começamos a ver um "making of" de Extremo Sul, embutido no filme. De início, esse making of parece existir para justificar o quase fracasso aparente do longa, uma vez que os alpinistas desistem de subir a montanha, menosprezando o trabalho da equipe de cinema e praticamente fazendo os diretores Sylvestre e Monica de palhaços. Palhaços sem público e sem intenção.

A pergunta que não tem resposta é: se os alpinistas acham que a presença da equipe de cinema é um terror, e que eles atrapalham tanto o curso da aventura (e isso tudo ainda mesmo tendo sido feita uma combinação prévia de que as duas equipes – cinema e alpinistas – não iriam estar em contato diretamente), por que eles concordaram de início com a realização de um documentário sobre a (terceira) conquista do Sarmiento?

O líder da equipe de alpinistas, Baretta, é extremamente antipático, todo o tempo, e, apesar de em suas entrevistas falar que aquilo era um time, em que todos dividiam tarefas e afazeres igualmente, ele se acha o astro da situação. Ao desistir de subir a montanha e quase pôr a perder todo o trabalho dos diretores, ele parece estar gostando daquilo. Ele parece gostar de se sentir "no comando", passando por cima de todos e meio que dizendo "viu? Sem mim não há filme".

Daí em diante, falta pouco para tudo partir para a baixaria, e Extremo Sul se torna uma guerrilha de cineastas versus alpinistas. Isso foge da proposta inicial do longa, e poderia tranquilamente ter sido sua derrocada, e nós não teríamos nem a chance de vê-lo. Mas, ironicamente, acontece o contrário, o filme é salvo por esse fato, deixando de se tornar "mais do mesmo", um simples documentário de pessoas subindo a montanha, pra se tornar algo como "pessoas se desentendendo no sopé da montanha". De verdade, como se fosse um Big Brother no gelo.

Partes como a da tela dividida em quatro (como já mencionado antes), refletem bem o sentimento e a confusão total dos alpinistas, que mal sabem o que querem fazer, cada um falando uma coisa diferente. Ainda nos é mostrada a expedição de australianos, anterior a essa dos brasileiros, ao mesmo monte, que foi bem-sucedida (e também estava sendo filmada, pelos próprios alpinistas), mostrando que os brasileiros são exagerados, e gostam de reclamar sentados, sem tomar atitudes, desistindo ao aparecer o primeiro e mínimo conflito. Mostra também que alpinismo, monte Sarmiento e cinema podem ser combinados sim, sem problemas.

No final das filmagens, parece existir um sentimento de que "tudo deu errado". Ninguém subiu a montanha e "não temos filme". Errado. É aí exatamente o ponto alto de Extremo Sul: ele é um "filme fênix", ressurgindo de suas próprias cinzas. Mas não deve ter sido fácil. Vemos isso por planos como o da diretora Monica Schmiedt sentada na proa do barco, saindo do local, ao término das filmagens, desalentada. Mas eis que na pós-produção, meio que por mágica (e muita inteligência e determinação), pensaram em lançar o filme com a temática de "conflitos interpessoais". E ele funciona, muito bem.

Saímos da sala de cinema surpresos porque entramos pensando que iríamos ver uma coisa, e saímos com as ideias completamente diferentes, pra melhor, bem melhor. E tudo isso, cantarolando "Donde Vas" pela saída. É inevitável.