Quartos Vazios, ou All the Empty Rooms de Joshua Seftel, é um documentário em curta-metragem que se apoia numa ideia simples e visualmente direta: visitar os quartos intactos de crianças mortas em tiroteios em escolas nos Estados Unidos. O projeto começou como uma série de fotos do jornalista veterano Steve Hartman e do fotógrafo Lou Bopp e foi transformado em filme, com pouco mais de meia hora de duração, agora disponível globalmente pela Netflix e até indicado ao Oscar de Melhor Curta Documentário.
O ponto de partida do filme é a própria premissa que ele desenvolve sem muita complicação: não há reconstituições dramáticas, nem entrevistas longas em câmera, nem trilha musical que force emoção. A câmera circula pelos espaços deixados como santuários pelas famílias, mostrando brinquedos, roupas, desenhos e objetos pessoais que permaneceram exatamente como estavam no dia em que a tragédia aconteceu. A escolha fria que Seftel faz aqui é clara, e a fotografia de Matt Porwoll se encarrega de captar a luz e as sombras desses ambientes como se aquilo, por si só, já fosse suficiente para transmitir o peso do silêncio.
Num nível técnico o filme é correto. A montagem ponderada por Erin Casper e sua equipe não tenta manipular a percepção do espectador, alternando planos com paciência e respeitando o ritmo lento que um tema desses impõe. A trilha de Alex Somers está lá, mas raramente se impõe, atuando como um suporte discreto, quase submerso, para que a ação visual prevaleça. Isso ajuda a criar uma atmosfera de contemplação, mais do que de choque, e pode ser visto como um acerto de linguagem se o objetivo for permitir que as imagens falem por si mesmas.
Apesar disso, a sensação que fica ao assistir Quartos Vazios é a de que estamos diante de algo que, embora respeitável, já foi visto inúmeras vezes. Nos últimos anos, documentários sobre violência armada e suas consequências têm proliferado e tornaram-se um subgênero bastante explorado, especialmente no contexto americano. O filme de Seftel faz exatamente aquilo que se propõe a fazer sem grandes deslizes ou rupturas — ele mostra, ele respeita, ele lembra — mas não há nenhum elemento narrativo ou estético que realmente o destaque em meio a tantos outros que tratam de tragédias similares. A abordagem deliberadamente despolitizada, que chega a evitar até mesmo mencionar explicitamente a palavra “arma” para não polarizar o público, é uma escolha que pode parecer compreensível, mas também reduz o impacto transformador que um documentário com esse tema poderia buscar.
Além disso, para mim pessoalmente, esse tipo de temática não provoca uma conexão emocional mais profunda. A ideia de entrar em quartos onde vidas foram interrompidas bruscamente tem um poder visual forte, e certamente há momentos em que as fotos ou os detalhes — um ursinho esquecido, uma parede cheia de desenhos — podem cortar o espectador por dentro, mas isso não é suficiente para superar a sensação de repetição que se instala. Quando um documentário não consegue oferecer uma perspectiva original ou uma voz narrativa distintiva, ele corre o risco de se tornar mais um entre tantos exercícios bem intencionados sobre a mesma dor coletiva. E é exatamente essa sensação que persiste em Quartos Vazios: um documentário correto, sem tropeços técnicos, mas também apenas isso, sem um impacto verdadeiramente marcante.
No fim, Quartos Vazios cumpre sua função de lembrar individualmente aqueles que não estão mais entre nós e de usar imagens e silêncio para tentar despertar algo no público. Mas sua maneira de tratar um tema tão batido e tão explorado já tem tantas representações que aqui, para mim, não acrescenta um novo olhar nem uma carga emocional mais profunda. A obra é digna de atenção pelo respeito com que lida com suas figuras e pela sensibilidade técnica em mostrar espaços tão íntimos, mas dificilmente se firmará como um documentário que realmente se destaca entre tantos outros que abordam a mesma ferida aberta na sociedade atual.
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