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janeiro 27, 2026

Guerreiras do K-Pop (2025)

 


Título original: KPop Demon Hunters
Direção: Maggie Kang, Chris Appelhans
Sinopse: Quando não estão lotando estádios, as estrelas do K-pop Rumi, Mira e Zoey usam seus poderes secretos para proteger os fãs contra ameaças sobrenaturais.


Guerreiras do K-Pop chegou como mais um título “evento” da Netflix em junho de 2025, prometendo uma mistura de música pop e fantasia animada que fundisse o frenesi das girl bands de K-pop com batalhas sobrenaturais cheias de energia. A premissa é simples ao extremo: Rumi, Mira e Zoey formam o girl group HUNTR/X, um grupo de estrelas pop que, quando não está arrasando estádios, combate criaturas demoníacas com o poder de suas vozes e coreografias. Imaginando isso no papel, a ideia tem certa leveza e potencial para um entretenimento vibrante, mas na prática é uma construção narrativa rasa que não sustenta o filme por muito tempo.

A história em geral é fortemente superficial. O roteiro coloca os elementos pop e fantasiosos na tela como se fossem suficientes em si, mas falta substância, conexão emocional e lógica interna. Por exemplo, o conflito central com um grupo rival formado por demônios mascarados de boy band jamais tem uma construção convincente ou motivação que vá além do clichê de “eles querem roubar nossos fãs”. O público acaba vendo cena após cena que se assemelha mais a um clipe musical prolongado do que a um arco dramático coerente. É difícil se importar com o destino das personagens porque mal chegamos a conhecer realmente quem elas são de verdade fora do palco e das lutas.

Essa fragilidade narrativa também se manifesta no ritmo. Em vários momentos a impressão é de que estamos pulando de um número musical espetacular para outro, sem uma ponte dramática sólida que conecte emocionalmente o público com os acontecimentos. A tentativa de inserir temas de identidade e aceitação soa forçada diante da falta de profundidade com que essas questões são tratadas. Vira e mexe o filme recorre a soluções fáceis de roteiro e diálogos expositivos para explicar relações ou motivações, o que acaba tirando qualquer frescor ou surpresa que a história pudesse ter.

Artisticamente, porém, Guerreiras do K-Pop tem aspectos que se destacam. A animação é vistosa e energética, com uma paleta de cores vibrante que casa bem com o universo do pop e com as coreografias ensaiadas para cada número musical. A direção visual consegue captar aquela sensação de espetáculo que se espera de um show de K-pop, com luzes, brilho e movimentos sincronizados que lembram grandes performances reais. Em muitos momentos, o impacto visual da animação é o que segura a atenção do espectador diante das lacunas do roteiro.

E é justamente nas músicas que o filme encontra sua razão de ser. As canções compostas para Guerreiras do K-Pop são de longe o ponto mais forte da produção. Elas realmente grudam na cabeça e conseguem transmitir uma energia contagiante, mesmo para quem não é fã do gênero. Isso explica por que parte do público e até mesmo o mercado musical abraçou essas faixas com entusiasmo, levando algumas a alcançar posições altas em paradas de sucesso global, como o hit “Golden”, que ultrapassou recordes nas listas da Billboard e em outras partes do mundo. A trilha sonora consegue ser memorável de uma forma que o restante do filme não é.

As performances vocais também ajudam a elevar essas faixas acima da média, e é fácil imaginar espectadores saindo do filme com algumas das canções na cabeça, ouvindo repetidas vezes depois. Mas esse brilho musical pouco faz para camuflar o fato de que a animação, por trás do espetáculo, carece de alma narrativa. A sensação que fica é de que os realizadores apostaram tudo no apelo sonoro e visual, negligenciando a necessidade de um roteiro mais sólido e personagens verdadeiramente envolventes.

Mesmo tecnicamente, embora seja impossível negar algum rigor na construção dos números musicais e no design dos personagens e cenários, o conjunto não se sustenta. Cada vez que a história tenta se aprofundar em temas como vulnerabilidade, amizade ou autoaceitação, esbarra em soluções narrativas preguiçosas e momentos que parecem colocados para preencher lacunas em vez de abrir portas para compreensão emocional. Isso torna a experiência final bastante superficial e dissociada da promessa que o título carrega.

De certa forma, é curioso observar que um filme tão assistido e comentado mundialmente possa falhar em algo tão essencial quanto uma boa história. O apelo pop e as músicas inegavelmente fortes funcionam como um tipo de cola que mantém o espectador engajado superficialmente, mas não há um núcleo narrativo que justifique realmente a existência da obra fora do espetáculo auditivo e visual. Se você busca um filme com profundidade ou personagens marcantes, dificilmente isso será encontrado aqui. A sensação que fica ao final é semelhante a terminar um álbum de músicas excelentes com letras fracas e pouco conectadas entre si.

A produção, ao se apoiar tanto em tendências culturais, especialmente na popularidade do K-pop e nos números de visualizações de streaming, faz sentido comercialmente, mas artisticamente se revela bastante falha. A impressão geral é de que os diretores Maggie Kang e Chris Appelhans colocaram mais energia na estética que na narrativa. Enquanto algumas cenas podem divertir momentaneamente, o todo acaba sendo esquecível, exceto pelas músicas que realmente grudam na cabeça do espectador.

No fim das contas, Guerreiras do K-Pop é um filme que vale mais pela sua trilha sonora do que por sua história. Mesmo com momentos visualmente atraentes e músicas que dificilmente saem da cabeça depois da sessão, não é possível ignorar que o roteiro em si é péssimo e a narrativa fraquíssima. O que poderia ter sido uma celebração inventiva da cultura pop termina sendo um produto visualmente saturado com pouco para contar de verdade, e a única razão pela qual ele permanece na memória de quem assiste são as faixas realmente cativantes que compõem sua trilha sonora.